Reportagem
Bytes musicais
Dos bilhões aos downloads
No dia 5 de novembro, quinta-feira, às 18 horas, o Eletronika 2009 recebeu o renomado executivo da indústria fonográfica, André Midani
O nascimento e a decadência da Indústria Fonográfica
André Midani iniciou a palestra citando três conceitos. Criatividade, criar algo do nada, inédito, o quê, para ele, é a força motora da sociedade. Tecnocracia, o domínio dos aspectos técnicos sobre as sociedades humanas. E novas tecnologias, as mudanças sucessivas que conduzem, a princípio, ao aprimoramento técnico das condições humanas. “Hoje a criatividade está a serviço da tecnocracia e novas tecnologias, ao invés do contrário”, alarmou, com efeito. De acordo com Midani, os tecnocratas submeteram os criadores, em um contexto de busca incessante do lucro, e não da qualidade artística.
Durante o debate Midani teceu uma análise histórica da Indústria Fonográfica. Segundo ele, nos anos 30 surgiu o interesse empresarial sobre a música. Posteriormente, na década de 50, grandes gravadoras, como a EMI, conceberam uma internacionalização do mercado musical, e partiram rumo a uma conglomeração, vista na compra de gravadoras de menor porte, como a Capital Records, e outras filiais na Europa e América Latina. Com o surgimento do Rock and Roll houve um crescimento comercial fonográfico. “Os custos com artistas e intérpretes se tornaram cada vez maiores”, comentou. A Indústria Fonográfica lucrava cifras exorbitantes, os conglomerados de comunicação, as gravadoras multinacionais, tinham suas ações na Wall Street em crescente valorização. Por esse período, em torno do começo dos anos 60, os tecnocratas se apoderaram da Indústria Fonográfica, argumentando que seriam melhores administradores da mesma. Midani frisou que os tecnocratas não tinham e não tem relação com os artistas e suas produções, mas sim com os números, cifras e desejo de lucro comercial.
O palestrante falou, também, sobre o Star System, que em suas palavras baseia-se na “fabricação de estrelas que façam sonhar”. Em seguida explicou as estratégias das gravadoras para a criação e consagração das estrelas da música. De acordo com Midani, o primeiro e o segundo disco serviam como teste de receptividade pela sociedade e o mercado, durante um período de três ou quatro anos, em que havia a criação de um relacionamento entre o artista/banda e seu público. O terceiro disco surgia, então, como uma possível recuperação financeira, e uma tentativa de vincular a estrela pop e seu público pelo resto de suas vidas.
Neste momento do debate, Midani soltou mais uma de suas expressões de efeito. “É da música que a Indústria Fonográfica nasceu. E é a indústria que está matando a música”. Prosseguiu falando sobre uma tendência que surgiu na década de 60 e consagrou-se nos anos 80. O foco passou dos artistas para as músicas, isto é, as canções ganharam mais importância comercial. “O sucesso comercial de uma canção dura em média nove meses”, argumentou. Na década de 80 nasceu o CD (Compact Disc). As transformações mais significativas para o bolso das gravadoras seriam sentidas, posteriormente, nos anos 90 com a emergência da pirataria que surgiu no mundo oriental, e rapidamente adaptou-se a realidade brasileira.
Sobre o cenário atual Midani não poupou comentários. Para ele, os inimigos das gravadoras são os fabricantes de hardwares e softwares, e não a juventude, que apenas usa os meios disponíveis. Segundo Midani, o artista já consagrado não é tão prejudicado pelos downloads gratuitos, como os artistas novos. O motivo do problema, para os iniciantes, seria a ausência do retorno financeiro do primeiro disco, que serviria para o financiamento dos próximos. André Midani também falou sobre a democratização das possibilidades de gravação, e a proliferação de músicas e produções ruins, observadas nos últimos anos. “Antigamente o artista fazia show para vender disco. Hoje ele faz disco para vender show”, a respeito das consequências dos downloads ilegais. Sobre o que pode acontecer, Midani especulou que o direito autoral pode desaparecer, por influência da cultura árabe. “O futuro sempre tem razão”, “A revolução começará amanhã, com essa geração”, finalizou profeticamente.